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Bombas sobre Aracaju

Letícia Conceição Silva
Graduanda em História (UFS)
Bolsista do projeto Transformações no cotidiano de Aracaju durante a Segunda Guerra Mundial
Integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente

Durante a Segunda Guerra Mundial, Aracaju foi bombardeada. Não diretamente por nações inimigas, mas pelo próprio Estado brasileiro. Acontece que, após os torpedeamentos de navios mercantes no litoral sergipano em agosto de 1942 pelo submarino alemão U-507, foram necessárias medidas de proteção contra futuros ataques. Depois da tragédia, as luzes foram proibidas de serem acesas à noite para evitar chamar atenção do inimigo. Além disto, treinamentos de alerta aéreo eram marcados quase mensalmente na capital.

Essas simulações pretendiam ensinar a população como se proteger em caso de um ataque real por aviões inimigos. Considerando que a cidade tinha sido pega desprevenida pelos torpedos alemães, as autoridades queriam estar preparadas para possíveis bombardeios. Lições eram divulgadas nos jornais da época com instruções para a população: como se comportar nos treinamentos? Quais os locais serviriam de abrigo? Tudo estava explicado nos periódicos, além das penalidades para os desobedientes, que não eram poucos.

Embora houvesse interesse em treinar a população e as equipes que atuavam na simulação, como bombeiros e socorristas, também buscava-se controlar o povo e mantê-lo obediente aos valores do Estado Novo (1937-1945), devendo “obedecer sem recalcitrar, pois que qualquer desobediência pode gerar consequências irremediáveis” (Correio de Aracaju, 22 de março de 1943). Assim, o descumprimento das normas representava o papel ativo dos aracajuanos diante da imposição do Estado autoritário.

Por outro lado, a desobediência não significava que o dia a dia da população fosse indiferente aos treinamentos, que transformavam a cidade em um teatro de guerra. Na primeira simulação, em 02 de março de 1943, as “bombas” eram sacos de areia. Mas a partir do segundo alerta, passaram a ser reais, “não das usadas pelas Forças Armadas, mas, são elas de fabricação especial e podem estabelecer o pânico entre os descuidados”(Correio de Aracaju, 13 de março de 1943), exigindo maior cuidado dos cidadãos. Assim, o povo aracajuano precisava estar atento às informações veiculadas para evitar ferimentos durante os treinamentos.

Ainda que tenham sido eventos de grande impacto em Sergipe, sobretudo em Aracaju, pouco se comenta a respeito das simulações na atualidade. Ainda pensamos na Segunda Guerra como algo distante, centralizado na Europa, mas esquecemos das transformações que ela impôs em nosso território. Buscar por abrigos, se proteger de bombas e obedecer sinais de alerta não eram atitudes restritas ao outro lado do Atlântico, mas, ainda que de forma simulada, também fizeram parte do dia a dia dos moradores de Aracaju. Relembrar o impacto do conflito no estado é um caminho para permanecermos conscientes das dificuldades que uma guerra é capaz de infligir, mesmo àqueles que se julgam afastados do sempre triste cenário bélico.

Originalmente publicado em: https://infonet.com.br/blogs/getempo/bombas-sobre-aracaju/ em 28/05/2026


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