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Melanina acentuada: sinal de uma distopia em ascensão

Caroline de Alencar Barbosa
Mestre em Educação na Universidade Federal de Sergipe (PPGED/UFS)
Graduada em História na Universidade Federal de Sergipe (DHI/UFS)
Graduada em Filosofia na Faculdade Uninter
Integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/UFS)

Fonte: https://images03.brasildefato.com.br/29ad90feb5ead343f5bf86b93fe3b5cc.jpeg

No último mês de abril, chegou aos cinemas o filme Medida Provisória. Baseado na peça “Namíbia não!, de Aldri Anunciação, vencedor do Prêmio Jabuti. A obra distópica nunca esteve tão perto de nossa realidade. Com a direção impecável de Lázaro Ramos, a obra fílmica sofreu, inclusive, censura do governo para chegar às telas de cinema.

Em um Brasil distópico, a trama centra-se na atuação de Antônio (Alfred Enoch), Capitu (Taís Araújo) e André (Seu Jorge), na contramão, como centro das atitudes racistas da obra, temos as personagens Dona Izildinha (Renata Sorrah) e Isabel (Adriana Esteves). A produção retrata um Brasil que, inicialmente, tenta reparar historicamente os diversos anos em que adotou o regime escravocrata, de navio negreiro e protagonizado por portugueses com milhares de vidas ceifadas, pessoas retiradas de suas terras para sofrer abuso e trabalhos forçados.

O governo do Brasil é representado como autoritário, racista, opressor e defensor da violência armada, opressão e violência policial. Nada muito diferente da realidade em que vivemos. O grupo Melanina Acentuada, do qual os personagens pretos fazem parte, exerce uma tentativa de reparação histórica e respeito, direito de ir, de vir e de fala. O personagem André tudo registra e coloca nas mídias sociais, em tom de protesto e denúncia. A partir desse governo que deseja “embranquecer” o país, surge a medida de lei que, como um auxílio governamental e uma reparação dos erros da escravidão, levará os negros de volta para a África.

O que inicialmente seria uma medida voluntária (só voltaria para a África quem desejasse) torna-se um plano de governo, uma medida obrigatória. Vemos toda a violência policial e política de prisão forçada, o embarque das pessoas pretas, o desembarque na África e a situação dos que resistem no Brasil; “este país também é meu”. Estes, utilizando-se da medida 150 do código penal (entrar ou permanecer, clandestina ou astuciosamente, ou contra a vontade expressa ou tácita de quem de direito, em casa alheia ou em suas dependências), permanecem em suas casas como forma de não sofrer os abusos policiais, além de protestar contra a medida aplicada pelas mãos dos líderes brancos. Dessa forma, vemos a resistência de André e Antônio a todo custo, com água e luz cortadas, ausência de alimentos e remédios.

A personagem de Taís Araújo encontra refúgio em um bunker onde as pessoas tentam resgatar as tradições africanas, a liberdade de ser brasileiro e de resistência; apesar da negativa de ser chamado de um Quilombo, o local se assemelha muito ao que conhecemos no Brasil colônia. Locais como esse são uma chance de segurança aos pretos perseguidos e agredidos pela polícia nas ruas do Rio de Janeiro. Do outro lado, o personagem de Seu Jorge, apesar de divertido e sarcástico, traz excelentes reflexões sobre a realidade do país e da liberdade. Em um determinado momento do filme, é dito “nós sempre nos adaptamos a eles, agora eles precisam nos ouvir e aprender conosco”.

Medida Provisória é, na atual conjuntura, um filme obrigatório e visceral. Homenageia as diversas crianças mortas em ações policiais nas favelas do Rio de Janeiro, assim como no Brasil como um todo, assim como a deputada Marielle Franco, morta e ainda sem justiça aplicada. O filme nos mostra as entranhas do racismo no país, incluindo falas como “eu não sou racista tenho vizinhos negros”.

É de suma importância compreender que as cotas raciais, o acesso à educação, aos direitos humanos, à liberdade de circular, falar e se expressar são de todos. Medida Provisória consegue, em 1h e 40 min, abordar todas as polêmicas que envolvem a vida e a sobrevivência das pessoas pretas. Além da história, o filme também traz sua mensagem na trilha sonora com músicas de Baco Exu do Blues, Liniker, Rincon Sapiência e Elza Soares. Que todos nós façamos parte da resistência! Todos! Melaninas acentuadas!

Originalmente publicado em: https://infonet.com.br/blogs/melanina-acentuada-sinal-de-uma-distopia-em-ascensao/ em 05/05/2022


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