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O site da Casa Branca e a insurreição de 6 de janeiro de 2021

José Gabriel L. Mendonça
Graduando em História (UFS)
Integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/UFS/CNPq)

No dia 6 de Janeiro de 2026, no aniversário de cinco anos dos ataques ao Capitólio dos Estados Unidos, o site oficial da Casa Branca publicou uma página virtual dedicada ao episódio. Naquele começo de tarde gélido em Washington D.C, o então presidente Donald Trump contestou publicamente o resultado das eleições do ano anterior, quando tentou a reeleição, e convocou seus apoiadores para uma “demonstração” de repúdio ao pleito. A multidão marchou para o Capitólio e empreendeu uma investida violenta, rompeu as barreiras de segurança do edifício e o invadiu com o objetivo de impedir a sessão conjunta do Congresso que confirmaria a vitória do candidato democrata Joe Biden. O confronto resultou na morte de cinco pessoas, entre elas um policial.

A página (https://www.whitehouse.gov/j6/ – endereço de IP: 192.0.66.51) tem como objetivo central a construção de uma nova narrativa sobre os acontecimentos. De que forma? Redefinindo o episódio de uma insurreição e promovendo uma nova narrativa. Nela, inverte-se a lógica das acusações. Segundo a página, os adversários democratas teriam sido os verdadeiros insurrecionalistas ao “fraudarem as eleições” e agirem contra os procedimentos democráticos.Na nova página da Casa Branca encontra-se, entre outras coisas, a declaração oficial do presidente Donald Trump, agora em seu segundo mandato, datada de 20 de janeiro de 2025, concedendo perdão a alguns dos envolvidos no ataque ao Capitólio. Nela também são exibidas fotografias de algumas das pessoas beneficiadas por esse perdão, sempre retratadas de forma positiva, sorridentes e acompanhadas de familiares.

Outros conteúdos podem ser encontrados em nove links de acesso disponibilizados na página. No entanto, três não funcionavam até o momento da nossa consulta e três eram basicamente vídeos, sendo um deles hospedado no YouTube. O que há nos links restantes? Relatórios, documentos de comitês e resoluções apresentados como fontes para sustentar a narrativa em construção na página. Entre os vídeos, destaca-se o material descrito como “vazado”, no qual a então presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, aparece “enfurecida”, assumindo, segundo o site, a responsabilidade pela ausência de segurança adequada no local do ataque. Esse vídeo surge duas vezes na página, com sua exibição destacada, reforçando a importância dele para a construção dessa narrativa.

Os outros dois vídeos constantes na página correspondem ao mesmo discurso do presidente Donald Trump dirigido aos seus apoiadores. A diferença entre eles é a edição, o primeiro apresentando a fala completa do republicano, com mais de 1 hora de duração, e o outro, atribuído à BBC, com apenas 21 segundos de fala. O que fica subentendido aqui, conforme a Casa Branca, é o nível de agressividade com que a versão cortada do vídeo apresenta a fala do presidente Trump, em comparação com a versão “original”, classificando a sua fala como uma convocação pacífica e moderada.

Quais outros elementos podem ser identificados? Entre os mais destacados, está uma linha do tempo que organiza cronologicamente os acontecimentos do antes, durante e depois do 6 de janeiro. Nela, Trump é retratado como alguém que teria apenas “convidado” as pessoas a se manifestarem, proferindo um “poderoso discurso”. Os participantes do ato são descritos como patriotas que marcharam até o Capitólio e realizaram uma manifestação pacífica. Ao contrário, a atuação policial é apresentada como marcada pela violência excessiva contra esses “patriotas” e os representantes dos democratas aparecem como responsáveis pela incapacidade de garantir a segurança dos manifestantes presentes, também sendo mencionada a morte de quatro indivíduos no evento. A narrativa culmina na acusação de que, diante desse cenário, os democratas teriam recorrido à “censura e perseguição” contra Donald Trump e seus apoiadores.

Pela reunião de textos, imagens, vídeos e outros documentos, a página “J6” do site da Casa Branca inegavelmente revela um esforço da administração Donald Trump para reconfigurar publicamente o significado e os acontecimentos de um dos episódios mais marcantes da história recente dos Estados Unidos da América. Nesse sentido, ela se torna não só um repositório de informações, mas também um instrumento de disputa pela memória do 6 de Janeiro.

Originalmente publicado em: https://infonet.com.br/blogs/getempo/o-site-da-casa-branca-e-a-insurreicao-de-6-de-janeiro-de-2021/ em 18/06/2026


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