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Quando o integralismo passou por Sergipe

Pedro Carvalho Oliveira
Professor de História Moderna e Contemporânea do Curso de História da Universidade Federal do Vale do São Francisco
Coordenador do Grupo de Estudos História do Tempo Presente, Política e Movimentos Sociais (Gehpmov-CNPq)

Ráica Ribeiro da Cunha
Graduanda em História pela Universidade Federal do Vale do São Francisco
Integrante do Grupo de Estudos História do Tempo Presente, Política e Movimentos Sociais (Gehpmov-CNPq)
Bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid-CAPES-Univasf)

Em janeiro de 1935, Omer Mont’Alegre, redator do jornal O Sigma, fundou o Centro de Estudos Plínio Salgado, em Sergipe, que serviria de espaço para discutir os rumos políticos da nação brasileira em meio à crise internacional das democracias liberais, do avanço comunista e da organização dos trabalhadores. Principalmente, o centro deveria servir como catalizador dos simpatizantes do integralismo no estado, pretendendo organizá-los no sentido da ação política. O próprio Plínio Salgado, líder da Ação Integralista Brasileira (AIB), veio à capital sergipana naquela ocasião e fora saudado por dezenas de entusiastas do integralismo, primeiro na Ponte do Imperador e, depois, na Praça Fausto Cardoso, como atestam fotografias da época.

Na década de 1930, a AIB era a maior organização fascista de massa fora da Europa. A organização reproduzia, adaptando ao contexto brasileiro, as atividades e os preceitos ideológicos do fascismo italiano, ensejando a formação de um Estado Integral capaz de encerrar as contradições (de raça, classe e gênero) geradoras do que considerava conflitos internos e tornar o Brasil uma potência regional. O custo disto seria o aprofundamento do autoritarismo (já intensificado pelo governo de Getúlio Vargas), a dissolução das mínimas estruturas permissivas ao sistema democrático e a ação persecutória contra os “inimigos da nação”, notadamente todos aqueles que não estavam dispostos a colaborar com a construção do futuro idealizado pelos “camisas verdes”, como eram conhecidos os membros da AIB.

A AIB possuía um sistema de doutrinação que perpassava não só o textual (como jornais e periódicos elaborados pelo próprio movimento), mas também aparatos simbólicos como as camisetas verdes e a letra sigma do alfabeto grego, que representa a soma. A partir desses aparatos, a AIB desenvolveu um dos maiores pilares da organização: a capacidade de gerar nos filiados um sentimento de pertencimento, no qual cada adepto seria uma engrenagem inestimável para o processo de expansão e divulgação dos ideais integralistas, conforme o pesquisador Odilon Caldeira Neto disserta em seu livro “Sob o signo do sigma” (Eduem, 2014).

Conforme o referido autor, grande estudioso do tema, o movimento ganhou muita força. Por mais que intelectuais reconhecidos tenham sido membros ativos do movimento, e tenham até mesmo ocupado lugares de prestígio na sociedade brasileira – como Gustavo Barroso, chefe das Milícias Integralistas, líder da ala antissemita da AIB e um membro ativo da Academia Brasileira de Letras -, o movimento não conseguiu se apropriar do poder, uma vez que Getúlio Vargas, durante a implementação do Estado Novo, fechou todos os partidos do país, tornando assim a organização ilegal, fato que os integralistas consideravam uma traição.

É curioso observarmos como a AIB chegou a Sergipe, um estado de menor proporção no cenário nacional e mesmo regional. Isto nos diz ao menos duas coisas. Primeiro, que o estado não estava isolado: devemos lembrar que o Ceará e a Bahia tiveram números expressivos de filiados, o que pode ter facilitado o acesso do integralismo a Sergipe. Em segundo lugar, é importante sublinhar que o integralismo, naquela quadra histórica, possuía prestígio e popularidade por se apresentar como alternativa em um momento de crise internacional. Este fato possibilitou sua operação em rede, levando suas ideias a diferentes regiões do país.

Em Aracaju, o integralismo apaixonou estudantes dos centros cívicos e colégios mais requisitados pela classe dominante, composta principalmente por oligarcas e latifundiários. E embora pareça problema dos anos 1930, o integralismo parece vivo. Em 2019, um grupo que se dizia inspirado em ideias integralistas atacou com bombas incendiárias a sede da produtora de vídeos humorísticos Porta dos Fundos. O que sabemos sobre o integralismo e sobre o que representa? E sobre o integralismo em Sergipe? Perguntas para as quais ainda não temos respostas concretas, mas que nos convidam à reflexão.

Originalmente publicado em: https://infonet.com.br/blogs/getempo/quando-o-integralismo-passou-por-sergipe/ em 31/05/2026


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