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50 anos da Operação Cajueiro: lembrar para não repetir

Jairton Peterson Rodrigues dos Santos
Professor do Instituto Federal de Sergipe – Campus Aracaju
Mestre em Ensino de História – UFS

Ditaduras não terminam com decretos, permanecem nas marcas que deixam. Ela persiste nos silêncios, nos medos herdados e naquilo que a sociedade decide esquecer. Por isso, falar de memória é falar de responsabilidade histórica. Recordar não é revanchismo, mas impedir que a violência volte a se apresentar como ordem.

Soube da Operação Cajueiro aos vinte anos, em 2005, durante um evento na Universidade Federal de Sergipe que abordava sobre a Ditadura Militar brasileira (1964-1985). Até então, aquelas histórias não eram História, mas cotidiano. O “senhor cego” com quem minha mãe falava quando íamos à Colina do Santo Antônio não era apenas uma figura da cidade, mas Milton Coelho de Carvalho (1942-2024), marcado pela tortura dessa operação. O vendedor que atravessava as ruas anunciando “Ela é boa, é bonita, é gostosa, como ela todo dia. Tem da branca e da preta, alô, como vai, dona Maria” não era somente Lídio da Cocada (1915-2015), porém um homem que enfrentara o tempo da exceção. Descobri ali que pessoas comuns haviam sustentado a democracia quando ela ainda não existia.

A Operação Cajueiro foi deflagrada em 20 de fevereiro de 1976 e constituiu a mais violenta ação repressiva da ditadura em Sergipe. Sob a justificativa de combater “atividades subversivas”, agentes militares sequestraram, prenderam e torturaram opositores no 28º Batalhão de Caçadores, em Aracaju. As prisões ocorreram sem mandado, os detidos permaneceram incomunicáveis e foram submetidos a espancamentos, choques elétricos, afogamentos e torturas psicológicas, contando inclusive com uma rede médica mobilizada para ocultar as violências.

O objetivo central era desarticular supostos quadros do Partido Comunista Brasileiro, ilegal desde 1947, e jovens ligados ao MDB em um contexto político específico: a derrota eleitoral imposta ao regime nas eleições de 1974. Naquele pleito, o crescimento expressivo da oposição revelou que o projeto de “abertura lenta, gradual e segura” escapava ao controle dos militares, pois a população passou a utilizar o próprio mecanismo institucional permitido pela ditadura para contestá-la. A repressão, portanto, não foi apenas preventiva, mas uma resposta direta ao avanço democrático nas urnas e ao temor de que a legalidade eleitoral se convertesse em instrumento de deslegitimação do regime.

Mesmo dentro da lógica autoritária, a operação revelou sua própria farsa: ao final do processo, a Justiça Militar absolveu os acusados, reconhecendo que as provas estavam “maculadas de vícios insanáveis”, ou seja, obtidas mediante tortura. Ainda assim, ninguém foi responsabilizado. A anistia selou o silêncio institucional enquanto as marcas permaneceram nos corpos e nas famílias.

Nomeá-los é também reparar. A democracia brasileira não nasceu de concessão, mas da resistência cotidiana de pessoas anônimas, trabalhadores, estudantes e cidadãos como Antônio Bitencourt, Antônio José de Góis, Asclepíades José dos Santos, Carivaldo Lima Santos, Carlos Alberto Menezes, Delmo Nazianzeno, Durval José de Santana, Edgar Odilon Francisco dos Santos, Edson Sales, Elias Pinho de Oliveira, Faustino Alves de Menezes, Francisco Gomes Filho, Gervásio Santos, Jackson Barreto Lima, Jackson de Sá Figueiredo, João Francisco Oséa, João Santana Sobrinho, Jonas da Silva Amaral Neto, José Carlos Teixeira, José Elias Pinho de Oliveira, José Soares dos Santos, Laura Maria Ribeiro Marques, Lídio dos Santos, Luiz Mário Santos da Silva, Marcélio Bonfim, Milton Coelho de Carvalho, Pedro Hilário dos Santos, Rosalvo Alexandre Lima Filho, Virgílio de Oliveira, Walter Santos e Wellington Dantas Mangueira Marques. Que esses nomes não sejam esquecidos.

Cinco décadas depois, a Operação Cajueiro continua a nos interpelar: não existe democracia sem memória, nem liberdade sem vigilância cidadã. Recordar esses nomes não é olhar para trás, mas proteger o amanhã. Porque povos que esquecem seus perseguidos acabam normalizando seus perseguidores.

Que a memória permaneça como ato político permanente, lembrando que nenhuma violência de Estado pode ser naturalizada e que a democracia é sempre uma conquista coletiva. Como nos dizia Jorge Amado no livro “Capitães de Areia”: “A liberdade é como o sol. É o bem maior do mundo.”

Originalmente publicado: https://infonet.com.br/blogs/getempo/50-anos-da-operacao-cajueiro-lembrar-para-nao-repetir/ em 05/03/2026


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