Por que áudios acelerados deviam nos preocupar? A filosofia explica

Ingrid Nogueira do Nascimento Magalhães
Graduanda em História pela UFRRJ.
Integrante do Grupo de Pesquisa intitulado Ética, Relações de poder, Subjetividade e Tecnologia junto à base de dados da CNPq.
Bolsista PIBIC-CNPq no projeto Movimentos sociais e o aparato repressivo na Baixada Fluminense durante a Ditadura Militar (1964-1985).

“Relógio mole no momento da primeira explosão” (1954), de Salvador Dalí.

Já pensou que não estava vivendo o suficiente? Já sentiu como se o tempo passasse rápido demais? Já ficou cansado sem motivo aparente? Já teve medo de ficar para trás? Quer saber como tudo isso pode estar relacionado à nova função de áudios acelerados do WhatsApp? O filósofo Byung-Chul Han talvez possa explicar.

Han é um filósofo sul-coreano que analisa questões da vida contemporânea. Ele descreve que “em nossa sociedade” o tempo todo, nos são cobrados resultados, até que nós internalizemos essa exigência. Dizem-nos que “tudo é possível, se nos esforçarmos”. Diante de tanta cobrança em um mundo de possibilidades, corremos sem parar para lá e para cá tentando dar conta de tudo, até que não dê mais. E é nesse momento de cansaço físico-existencial que surgem, até mesmo, psicopatologias como depressão e ansiedade.

Se já não temos tempo, às vezes, nem para o lazer, ainda somos bombardeados de informações por todos os lados somadas às outras demandas da vida que não para 24h por dia, 7 dias por semana. Em O Aroma do Tempo, Han diz que “a vida se tornou mais febril, mais confusa, mais desorientada. Por causa de sua dispersão, o tempo não exerce mais nenhuma força ordenadora. (…) Assim envelhecemos, sem nos tornar velhos”.

A aceleração desorienta, é cansativa e não oferece espaço. De videoaulas a podcasts, apressar áudios e vídeos tem se tonado febre nos últimos anos. Porém, a última atualização do aplicativo WhatsApp é ainda mais preocupante. Isso porque o app já soma 99% de usuários na população brasileira e 95% afirmam acessá-lo todos os dias, segundo o site Mobile Time.

Han aponta que atualmente se dá uma crescente crise de sentido temporal geradora de descontinuidades responsáveis por instantes pouco especiais. São momentos que parecem sempre iguais. Não se tendo assim nenhum ritmo que proporcione significado às nossas vidas, algo para nos agarrar ou orientar.

Nesse caminhar frenético, nossas relações também estão em crise. Para o filósofo, a desfragmentação do tempo traz consigo uma coisificação dos sujeitos. Você acelera o áudio de um amigo mesmo com o risco de perder informações. Acelera séries e filmes, mesmo sendo um momento de lazer. Já não consegue dar atenção às aulas ao vivo, pois se acostumou à alta velocidade das gravadas.

Por uma economia irrisória de tempo, transformam-se relações em situações de perda ou ganho temporal. Reduzir pessoas a valores é um processo que também transfigura simbolicamente sujeitos em coisas. O que vale seu tempo? Não quanto. Essa é a pergunta que devíamos nos fazer.

Para saber mais:

HAN, Byung-Chul. O aroma do tempo. Um ensaio filosófico sobre a arte da demora. Lisboa: Relógio d’Água, 2016.

PAIVA, Fernando. 95% dos usuários do WhatsApp acessam o aplicativo todo dia. Mobile Time. [S. l.] 03 set. 2020. Disponível em: <https://www.mobiletime.com.br/noticias/03/09/2020/95-dos-usuarios-do-whatsapp-acessam-o-aplicativo-todo-dia/>. Acesso em: 07 jun. 2021.

Originalmente publicado em: https://infonet.com.br/blogs/por-que-audios-acelerados-deviam-nos-preocupar-a-filosofia-explica/ em 26/08/2021


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