100 anos da revista A Scena Muda

Prof.ª Dr.ª Andreza S. C. Maynard
Universidade Federal de Sergipe
Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/UFS/CNPq)

Capa da revista A Scena Muda, n.1, 31/03/1921. Fonte: http://mls.bireme.br/_navegador_pdf.php?data=s|1921|03|01|0001. Acesso em 10/06/2021.

Em 31 de março de 1921, era lançada no Brasil a primeira revista sobre cinema. Trazendo na capa a atriz estadunidense Bebe Daniels, A Scena Muda chegava para se estabelecer no mercado editorial brasileiro como uma referência.

Editada no Rio de Janeiro pela Editora Companhia Americana, ela era uma revista de fã, ou seja, estava a serviço da divulgação dos filmes produzidos pelos grandes estúdios de Hollywood. Por isso mesmo, centrava sua atenção na divulgação de fotos de atores e, principalmente, de atrizes norte-americanas. Além das imagens dos artistas, revelava-se o que eles estavam fazendo nos sets de filmagem e fora deles.

Durante 34 anos, a revista publicou informações sobre os filmes que seriam lançados em breve, mas também notícias a respeito dos romances entre atrizes e atores, casamentos, nascimento de filhos, viagens, momentos de lazer, eventos sociais que frequentavam, cuidados com o corpo e a aparência. Num jogo duplo, satisfazia-se a curiosidade dos fãs, ao mesmo tempo que eles eram estimulados a querer saber mais.

Os rostos de estrelas de primeira grandeza em Hollywood, como os de Clara Bow, Shirley Temple, Deanna Durbin, Bette Davis, Clark Gable, Tyrone Power e, é claro, Carmem Miranda, estamparam as capas de A Scena Muda durante as décadas de 1920, 1930, 1940 e 1950.

A trajetória da revista foi marcada por quatro fases. Entre 1921 e 1941, a publicação manteve o formato, com poucas mudanças. O foco estava no cinema hollywoodiano, apesar de já haver, nessa primeira fase, algumas notícias sobre o cinema brasileiro.

Na edição de 15 de abril de 1941, a revista aparece com uma sutil modificação no título e passa a se chamar A Cena Muda. Era um indício de aproximação com o Brasil. Numa segunda fase, que vai de 1942 a 1949, há notícias sobre o rádio em sessões como “Coktail de Rádio e Cinema” e “Melodias e Ritmos”.

A terceira fase se dá entre 1949 e 1952 e é marcada pela participação de nomes como os do cineasta Alex Viany e do jornalista Salvyano Cavalcanti de Paiva, que escreviam críticas cinematográficas tanto de filmes estrangeiros, quanto dos nacionais. Na quarta fase, que vai de 1952 a 1955, A Cena Muda entra em declínio. O mundo estava diferente, mas a revista continuava a representar os artistas com os valores das décadas anteriores. A fórmula que promovia uma espécie de canonização dos astros já não funcionava.

Durante a sua existência, A Cena Muda concorreu com a Cinearte, outra revista dedicada ao cinema e que também teve grande circulação no país. No entanto, Cinearte circulou apenas entre 1926 e 1942, enquanto A Cena Muda permaneceu por mais tempo no mercado editorial brasileiro, tendo sido publicada entre 1921 e 1955.

Considerando sua longevidade, a revista se constituiu num documento histórico de relevo. Além de temas evidentes como o cinema hollywoodiano, a revista guarda informações a respeito de filmes e artistas brasileiros, padrões de comportamento, gênero, representação feminina, moda, estilo de vida, práticas de exibição de filmes no Brasil, recepção aos filmes e uma infinidade de outros assuntos.

O acervo digital do periódico foi disponibilizado pelo Museu Lasar Segall e pela Hemeroteca Digital Brasileira (Biblioteca Nacional Digital). Cem anos depois de ter publicado a sua primeira edição, A Cena Muda continua a despertar o interesse de pesquisadores e de curiosos em geral.

Originalmente publicado em: https://infonet.com.br/blogs/100-anos-da-revista-a-scena-muda/ em 17/06/2021


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